

Biografia do Padre Fabio Potiguar
Espiritualidade, direitos humanos e Poesia
Biografia de Padre Fabio Potiguar
Padre Fabio Linhares Dantas e Santos, conhecido como Fabio Potiguar, é sacerdote católico, formado em Filosofia e Teologia, escritor, cantor, comunicador, gestor público e militante dos Direitos Humanos. Conhecido também por sua dimensão mística e pela imagem do “monge urbano”, sua trajetória é marcada pela espiritualidade, pela defesa da dignidade humana, pela justiça social e socioambiental, pelo ecumenismo, pelo diálogo inter-religioso e intercultural, pela cultura, pela poesia e pela comunicação.
Natural de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, construiu uma trajetória que atravessa o Nordeste brasileiro, o Rio de Janeiro e a Europa, especialmente Itália, França e Suíça. Sua vida reúne formação filosófica e teológica, sacerdócio, experiência monástica trapista, atuação pastoral, comunicação de massa, música, gestão pública, Educação em Direitos Humanos, participação social e uma longa experiência de diálogo entre diferentes tradições cristãs, religiosas e culturais.
Radicado no Recife, sua vida e seu ministério encontram hoje um de seus lugares simbólicos mais importantes na Igreja das Fronteiras, profundamente ligada à memória de Dom Helder Câmara.
Sua trajetória pode ser compreendida a partir de algumas palavras que continuamente se encontram: Deus, humanidade, espiritualidade, mística, poesia, pobres, ecumenismo e diálogo inter-religioso, justiça, Direitos Humanos, diálogo intercultural, criação e paz.

Foto por Luciano Santos
RAÍZES NORDESTINAS
Natural de Currais Novos, Padre Fabio Potiguar traz consigo uma identidade profundamente nordestina, uma das matrizes de sua compreensão da religiosidade, da cultura, da poesia, da vida popular e das desigualdades brasileiras.
É filho de Francisco Inácio dos Santos e Maria José dos Santos. Pelas raízes paternas, é neto de Ananias Inácio dos Santos e Antônia Francisca Linhares; pelas raízes maternas, de Delmiro Augusto de Medeiros Dantas e Maria Rita da Anunciação. Nessa herança familiar se entrelaçam a fé, o trabalho, a simplicidade e a resistência características do povo sertanejo.
Essa pertença atravessa sua atuação pastoral, sua comunicação, sua produção escrita, sua experiência com políticas públicas e sua aproximação com o pensamento e o legado de Dom Helder Câmara, junto a demais bispos, como Dom Paulo Evaristo, Dom José Maria Pires, Dom Antônio Fragoso, dentre outros.
ARQUEOLOGIA DA VOCAÇÃO
FRANCISCO DE ASSIS, CRISTO E OS POBRES
Na arqueologia de sua vocação sacerdotal encontra-se uma presença fundamental: São Francisco de Assis.
Filho de comerciantes, Padre Fabio cresceu em Currais Novos em uma família ligada ao comércio. Seu pai e sua mãe possuíam uma pequena fábrica de móveis e as lojas Móveis Seridó além de uma madeireira e funerária, com presença em Currais Novos, Caicó, Santa Cruz, Patos e Pombal.
Em outubro 1979 sua família recebeu a Ordem Terceira Franciscana Secular para uma novena de São Francisco. Quando o menino Fabio ouviu a história de um de comerciante que deixou tudo para seguir Jesus, nasceu nele a vocação.
É nesse contexto que a história de São Francisco de Assis ganha para ele uma força particular. Filho de comerciante, São Francisco vive uma experiência pessoal e transformadora com Jesus Cristo e como consequência desse encontro, reconhece o próprio Cristo no pobre, no leproso, naquele que estava colocado à margem.
Essa experiência tornou-se fundante para a compreensão da própria vocação de Padre Fabio: o encontro pessoal com Jesus Cristo conduz necessariamente ao encontro com o pobre, com o marginalizado, com aquele cuja dignidade é ferida ou negada.
Duas dimensões que posteriormente atravessariam toda a sua trajetória já estavam, portanto, presentes na origem de sua vocação: a experiência de Deus e a opção pelos pobres. Espiritualidade e compromisso social não surgiriam, mais tarde, como caminhos paralelos. Nasceram juntos.


COMUNIDADE NOVA JERUSALÉM
Imagens da loja matriz e da fábrica, da madereira e funerária
A PALAVRA, A ORAÇÃO E AS COMUNIDADES DE BASE
O primeiro ano de seminário de Padre Fabio foi vivido na Comunidade Nova Jerusalém, comunidade monástica e urbana fundada pelo biblista Caetano Minette de Tillesse.
A experiência deixou uma marca profunda em sua formação espiritual e bíblica. As manhãs eram dedicadas à oração e ao estudo da Palavra. Com Caetano Minette de Tillesse, aprofundava-se o estudo bíblico, inclusive a partir do grego e do hebraico, além da formação teológica. Depois, cada seminarista permanecia pessoalmente dedicado ao estudo, à leitura e à oração da Palavra.
À tarde, seguia-se a formação acadêmica, na faculdade ou no colégio. À noite, a experiência deslocava-se para a vida concreta das Comunidades Eclesiais de Base presentes nos quarteirões.
Formava-se, assim, uma dinâmica que deixaria marcas permanentes em sua maneira de compreender a fé: oração, Palavra, estudo e comunidade. A Bíblia era simultaneamente estudada, rezada e confrontada com a vida.
Essa experiência ajuda a compreender uma característica que permaneceria em sua trajetória sacerdotal: uma espiritualidade na qual o estudo teológico não se separa da oração, e a oração não se separa da realidade concreta do povo.
FORMAÇÃO FILOSÓFICA E TEOLÓGICA
É bacharel em Filosofia pela Faculdade Eclesiástica de Filosofia João Paulo II, no Rio de Janeiro, desde 1990, e bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — PUC-Rio, desde 1995.
Em Roma, frequentou, como aluno hóspede, instituições como a Pontifícia Universidade Gregoriana, o Pontifício Ateneu Santo Anselmo e o Pontifício Instituto Oriental.
Padre Fabio Potiguar é fluente em espanhol, italiano e francês.
Sua formação incorporou ainda estudos e cursos no campo dos Direitos Humanos, inclusive experiências formativas vinculadas à Organização dos Estados Americanos — OEA, ao sistema interamericano de Direitos Humanos e às Nações Unidas no Brasil.
Posteriormente realizou estudos de pós-graduação em Gestão Governamental e Políticas Públicas Sociais na PUC-Rio, formação não concluída.
Padre Fabio Potiguar fez curso sobre Direitos Humanos pela Fundação Interamericana e Defesa dos Direitos Humanos, em São Paulo, em 2003. Em 2004, qualificou-se em Direitos Humanos e Direitos Sociais pelo Tribunal Superior do Trabalho e pela Organização Internacional do Trabalho, em Brasília. Em 2005, concluiu, no Centro de Estudos Jurídicos do Superior Tribunal de Justiça, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o curso sobre o Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos e o Brasil.
Em 2006, na Paróquia de São José, em Belo Horizonte, fez curso com o Padre Dalton Barros sobre atendimento de confissões, direção espiritual e orientação.
SACERDÓCIO E EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL
Ordenado sacerdote em 1995, Padre Fabio desenvolveu seu ministério em diferentes realidades do Brasil e da Europa.

Durante o período de estudos em Roma, nos finais de semana deslocava-se para a Toscana, colaborando pastoralmente na Paróquia de Pestello, em Montevarchi.
Entre 2007 e 2009, desenvolveu também experiência pastoral na Suíça, dedicando o mês de julho de cada um desses três anos ao trabalho pastoral na região de Montreux.
Celebração da primeira missa (1995)

No Rio Grande do Norte, foi pároco de Arez e reitor do Seminário Menor de Natal, entre 1998 e 2000. Esteve ainda ligado à criação da Paróquia de São Miguel do Gostoso, onde desenvolveu atividade pastoral entre 2007 e 2010.
Ao longo de sua caminhada, sua compreensão do sacerdócio foi associando espiritualidade e compromisso com a realidade humana: altar e rua, contemplação e justiça, oração e Direitos Humanos.
Cerimônia de casamento na Suíça (2008)
A EXPERIÊNCIA MONÁSTICA — 1995 A 1998
Thomas Merton, oração, trabalho, Lectio Divina e a formação do “monge urbano”
Entre 1995 e 1998, Padre Fabio Potiguar viveu uma experiência decisiva de formação espiritual na tradição monástica trapista, tendo como referência fundamental o Mosteiro de Mont-des-Cats, em Godewaersvelde, na França.
Foram anos que deixaram marcas profundas e permanentes em sua espiritualidade e em sua maneira de compreender Deus, o ser humano, o silêncio, a oração e a própria existência.
Entre as grandes influências espirituais e intelectuais desse período destaca-se, de maneira particular, Thomas Merton, monge trapista, escritor e místico cristão. Sua reflexão sobre contemplação, silêncio, liberdade interior, humanidade, paz e abertura ao diálogo exerceu enorme influência na formação espiritual de Padre Fabio.
A vida no mosteiro era estruturada pelo ritmo da oração. O dia começava ainda de madrugada, por volta das três horas da manhã, com as Vigílias ou Ofício das Leituras, e seguia marcado pelas diferentes horas da Liturgia das Horas: Laudes e os demais momentos de oração distribuídos ao longo do dia, até as Vésperas e as Completas.
Entre as Vigílias e as Laudes havia um tempo particularmente precioso dedicado à Lectio Divina — a leitura orante, silenciosa e contemplativa da Sagrada Escritura. A vida monástica reservava largos períodos para o silêncio, a leitura, a meditação e a interiorização da Palavra.
Mas a experiência trapista não se reduzia à oração. Na tradição do ora et labora — reza e trabalha — , oração e trabalho constituíam dimensões de uma mesma existência.
A comunidade monástica procurava viver também do trabalho de suas próprias mãos. Os monges participavam da manutenção do mosteiro, do trabalho ligado à terra e das atividades produtivas da comunidade. Em Mont-des-Cats, essa tradição estava associada também à produção de queijo e cerveja, inserindo o trabalho cotidiano no próprio ritmo da espiritualidade monástica.
O silêncio, portanto, não significava ausência do mundo nem ociosidade. Era um silêncio habitado pela Palavra, pelo trabalho, pela comunidade e pela busca de Deus.
A disciplina das horas, a Liturgia, a Lectio Divina, o trabalho, o silêncio e a contemplação permaneceriam como referências interiores mesmo depois de sua saída da vida monástica.
Nesse universo nasceram também escritos, cadernos e reflexões que, muitos anos depois, se encontrariam com sua produção literária e, particularmente, com questões desenvolvidas em Com as Mãos do Coração: o Mistério, as “trevas luminosas”, o silêncio de Deus, o Sofrimento de Deus, a Humildade de Deus e a busca de uma presença que não se deixa aprisionar pelas certezas.
Essa permanência interior da experiência monástica ajuda a compreender uma expressão pela qual Padre Fabio Potiguar é também conhecido: “monge urbano”. É igualmente reconhecido por uma dimensão que atravessa sua trajetória espiritual e sua produção escrita: a mística.
O mosteiro deixou de ser apenas um lugar geográfico e tornou-se uma maneira de habitar o mundo. O silêncio, a Lectio Divina, a contemplação e a busca do Mistério passaram a conviver com a cidade, as ruas, os pobres, os Direitos Humanos, a cultura, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso e as grandes questões sociais de seu tempo.
Essa dimensão mística encontra uma de suas expressões mais claras em Com as Mãos do Coração. Ali aparecem temas que atravessam sua experiência de Deus: as “trevas luminosas”, o Mistério que ultrapassa nossas certezas, a Humildade de Deus, o Sofrimento de Deus e a percepção de um Deus que grita no pobre e geme na criação.
Trata-se, portanto, de uma mística que não conduz à fuga do mundo. Ao contrário: quanto mais profundamente procura Deus, mais profundamente encontra a humanidade e a criação. A contemplação desemboca no compromisso; a experiência de Deus conduz ao pobre; o silêncio aprende a escutar os gemidos do mundo.
É nessa convergência entre contemplação e cidade, silêncio e palavra, mística e compromisso histórico que se compreende a imagem do “monge urbano”.

Padre Fabio — Mosteiro Trapista de Notre Dame de Mont-des-Cats no norte da França
NAMORADO DE DEUS

Padre Fábio Potiguar Santos é um sacerdote profundamente apaixonado pela comunhão da intimidade do amor, como no livro Cântico dos Cânticos do Velho Testamento. Inspirado na mística de Santos e Santas, compreende que a relação de Deus e seu povo, de Cristo e a Igreja, é a do amado e da amada, trazendo a expressão “Deus é meu namorado” como fundamento de fé e espiritualidade.
Esse hábito de fortalecer a comunhão com Deus rezando ainda de madrugada foi adquirido no período em que foi seminarista no Rio de Janeiro, antes mesmo de sua experiência monástica, e acompanhou também o ano em que viveu na Itália, dentro da mesma temporada europeia em que se tornaria monge trapista.
Essa experiência foi fundante na dimensão da esponsalidade, intimidade, comunhão e solidão com o Deus, com a Humanidade e com a Criação, na vida do Padre Fábio Potiguar, que se dedica a anunciar a graça e o encanto da beleza de Deus encontrada no rosto de Jesus de Nazaré, pobre e carpinteiro, e no Espírito Santo, numa dança envolvente conhecida como Pericórese, do grego perichōrēsis:
O Padre é um Lavador de Pés. Por Luciano Santos
“O Pai, pelo Filho, no Espírito nos bendiz; nós, no Espírito, pelo Filho, bendizemos o Pai”.
Como presbítero em comunhão com toda a Igreja, com toda a Humanidade e com toda a Criação, o sacerdote, unido à sua comunidade, repleto do Espírito Santo, por Cristo, com Cristo e em Cristo oferece ao Pai o sacrifício pascal de seu filho na celebração eucarística que se estende para todos os sacramentos e sua ação pastoral.

Cláudio Pastro, retirada do livro Arte Sacra (2001)

AFASTAMENTO, RETORNO E A FESTA DO REENCONTRO

Diário de Natal (2002)
Entre 2003 e 2006, por livre iniciativa, Padre Fabio Potiguar pediu um período de afastamento do exercício do ministério presbiteral. Posteriormente, retornou ao ministério, numa experiência que adquiriu profundo significado existencial e espiritual em sua trajetória.
A parábola do filho pródigo tornou-se uma das imagens evangélicas capazes de iluminar essa experiência. Mas talvez a imagem maior da parábola não seja simplesmente a do filho que volta. É a do pai que, vendo o filho ainda de longe, corre ao seu encontro, abraça-o e cobre-o de beijos.
É a imagem de um Deus que não espera friamente o arrependido chegar à porta: corre em sua direção. Deus nos abraça e nos beija.
E há ainda outra imagem extraordinária. Quando o irmão mais velho se aproxima da casa, escuta o barulho da música e da dança. Há festa porque alguém voltou. O Deus que abraça e beija é também o Deus que canta e dança conosco.
Foi também um tempo em que, tendo provado pessoalmente da misericórdia, Padre Fabio pôde compreender, talvez mais profundamente do que antes, a palavra de Jesus:
“Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”
Lc. 6,36
A misericórdia, quando verdadeiramente experimentada, não permanece apenas como memória de quem a recebeu: torna-se uma maneira de existir. Aquele que experimenta a misericórdia aprende a espalhar misericórdia.
Quem foi acolhido aprende a acolher; quem foi abraçado aprende a abraçar; quem recebeu uma nova possibilidade aprende a oferecê-la aos outros.

Tribuna do Norte (2006)
Essa experiência ajuda também a compreender, muito concretamente, a ação pastoral de Padre Fabio. Seu modo de exercer o ministério é marcado por essa experiência vivida da misericórdia: não apenas como conceito teológico ou palavra anunciada, mas como realidade experimentada na própria carne e na própria história.
SÃO MIGUEL DO GOSTOSO —
PARÓQUIA, DIREITOS HUMANOS, ECOLOGIA, CULTURA E CIDADANIA
Um capítulo particularmente fecundo da trajetória pastoral de Padre Fabio Potiguar aconteceu em São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, onde desenvolveu sua atividade pastoral entre 2007 e 2010.
A experiência foi estruturada em dois grandes braços, distintos em sua natureza, mas profundamente articulados: de um lado, a Paróquia, com a organização da vida eclesial, pastoral e comunitária; de outro, o CDHEC — Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania — ESPAÇO TEAR, organização da sociedade civil voltada à promoção dos Direitos Humanos, da Ecologia, da Cultura e da Cidadania.
No âmbito eclesial, realizou-se intenso trabalho pastoral de base, com fortalecimento das pastorais, movimentos, serviços e lideranças. O que era uma capela foi progressivamente estruturado até tornar-se paróquia, com construção da casa paroquial e da secretaria paroquial.
O ESPAÇO TEAR tornou-se lugar de encontro, formação, organização comunitária, Educação em Direitos Humanos, consciência ecológica, valorização da cultura popular, arte, comunicação e participação cidadã. Foram desenvolvidos cursos profissionalizantes e oficinas de Boi de Reis, Pastoril, Teatro Popular e Teatro de Rua, além de iniciativas de Arte e Ciência, produção de vídeos e criação de revistas.
Em 2008, por ocasião dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, foi desenvolvido o projeto “São Miguel do Gostoso — Cidade Universal dos Direitos Humanos: para cada cidadão, uma Declaração”, mobilizando Igreja Católica, Igrejas Evangélicas, sindicatos, Colônia de Pescadores, escolas, organizações da sociedade civil e comunidades da sede, litoral, assentamentos, distritos e interior.
Um dos momentos culminantes foi a Via-Sacra dos Direitos Humanos, em forma de caravana, na qual cada estação correspondia a um artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, fazendo dialogar linguagem religiosa, cultura popular, arte e Educação em Direitos Humanos.
Uma das realizações de maior projeção nascidas desse ambiente é a Mostra de Cinema de Gostoso, desenvolvida em parceria entre o CDHEC — ESPAÇO TEAR e a Heco Produções, de Eugênio Puppo. Consolidada no calendário do cinema brasileiro, a Mostra reúne realizadores e profissionais do audiovisual e possui forte dimensão formativa, com oficinas para jovens do município e produção de curtas e experiências de longa-metragem.
O Espaço TEAR, sede do CDHEC em São Miguel do Gostoso, é Ponto de Cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura. A Mostra de Cinema de Gostoso, realizada em parceria com a Heco Produções, já produziu 27 curtas-metragens e um longa-metragem. Em 2023, na décima edição, Padre Fabio foi o homenageado.
São Miguel do Gostoso tornou-se, assim, uma experiência singular de encontro entre fé e cidadania, Igreja e sociedade civil, Direitos Humanos e ecologia, cultura popular e formação, arte e transformação social.
DIREITOS HUMANOS
GESTÃO PÚBLICA NO RIO GRANDE DO NORTE
Entre 2003 e 2006, Padre Fabio Potiguar atuou como gestor de Direitos Humanos na Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias da Secretaria de Justiça e Cidadania do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, coordenando planos de promoção da redução das desigualdades, mediando conflitos com movimentos sociais e agindo como negociador durante greves de professores, policiais civis e militares.
Sua atuação, à luz da Doutrina Social da Igreja, compreendia diferentes frentes de promoção, proteção e defesa dos Direitos Humanos — civis e políticos, assim como econômicos, sociais, culturais e ambientais — , envolvendo políticas e ações voltadas às crianças e adolescentes, mulheres, pessoas idosas, pessoas com deficiência, população LGBT, povos indígenas, comunidades quilombolas, povos ciganos e periferias, além de outros grupos historicamente vulnerabilizados. Era também defensor da liberdade de expressão e da liberdade religiosa, apoiador da democracia, da livre iniciativa, dos salários justos e do desenvolvimento econômico e social atrelado à sustentabilidade e ao equilíbrio ecológico, defendendo o direito à terra e a reforma agrária, além de atuar no enfrentamento à exploração sexual infanto-juvenil.
O trabalho abrangia uma concepção integral dos Direitos Humanos, articulando direitos civis e políticos aos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Uma característica marcante foi a presença no território: percorreu o Rio Grande do Norte, visitando municípios e comunidades e realizando palestras, encontros, formação e mobilização.
Entre 2003 e 2005, presidiu o Conselho Estadual dos Direitos Humanos e Cidadania. Foi Coordenador de Articulação e Mobilização no Conselho Deliberativo do Código de Conduta de Combate ao Turismo Sexual. Em 2004, coordenou o Setor de Mobilização e Articulação do Plano Estadual de Enfrentamento à Violência, ao Abuso e à Exploração Sexual Infanto-Juvenil.
Padre Fabio participou de diferentes conselhos de direitos e políticas públicas, entre eles o Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, do qual foi vice-presidente; o Conselho da Pessoa Idosa; o Conselho da Assistência Social; o Conselho da Pessoa com Deficiência; além de espaços relacionados à segurança alimentar. Ele também foi membro da Comissão da Verdade do Rio Grande do Norte.
Entre 2004 e 2006, participou da articulação nacional dos gestores públicos de Direitos Humanos do Poder Executivo, experiência que o levou à construção do Fórum Nacional de Gestores de Direitos Humanos, do qual foi fundador e primeiro presidente.
Padre Fabio atuou junto aos indígenas da comunidade do Catu e mediou, com a Delegacia Regional do Trabalho, mesas de diálogo entre empregados e empresas em casos de assédio moral. Nesse período foram criados o Centro de Defesa de Direitos Humanos do Homossexual e o Plano Estadual de Promoção da Igualdade Racial.
Biografia do Padre Fabio Potiguar
CENTRO DE DIREITOS HUMANOS E MEMÓRIA POPULAR — CDHMP
Uma referência importante em sua trajetória é a relação com o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular — CDHMP, no Rio Grande do Norte.
O encontro com o CDHMP aprofundou uma compreensão dos Direitos Humanos construída a partir da sociedade civil organizada, da educação popular, dos movimentos sociais, da participação cidadã e da memória das lutas do povo.
Sua atuação aproximou-se da defesa da Memória, Verdade, Justiça e Democracia, especialmente do resgate da história das pessoas que sofreram perseguições e violações de direitos por razões políticas no Rio Grande do Norte, revisitando períodos como a Insurreição de 1935, o Estado Novo e a ditadura militar.
Padre Fabio tornou-se também sócio honorário da associação potiguar ligada aos presos e anistiados políticos.
Padre Fábio Potiguar foi Vice-presidente do CDHMP (Centro de Direitos Humanos e Memória Popular) de 2000 a 2010, sendo Consultor Permanente da equipe DHNET, Membro da Coordenação da Caravana dos Direitos Humanos e Coordenador Adjunto da agência do Alto Comissariado nas Nações Unidas para os Refugiados.
CARAVANA DOS DIREITOS HUMANOS
RIO GRANDE DO NORTE
Em 2007, Padre Fabio participou da realização da Caravana dos Direitos Humanos, desenvolvida nas cidades-polo do Rio Grande do Norte em articulação entre o Conselho Estadual dos Direitos Humanos e Cidadania, a Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias e o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular — CDHMP.
As caravanas mobilizavam as cidades por meio do teatro de rua, da arte circense e de outras manifestações culturais, reunindo saúde, educação, cultura, sindicatos, organizações da sociedade civil e os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
A iniciativa levava a promoção e a educação em Direitos Humanos diretamente às diferentes regiões do estado, articulando mobilização social, cultura, arte e participação institucional.
GOVERNO FEDERAL
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS
Em 2010, mudou-se para Brasília onde, no Governo Federal, Padre Fabio Potiguar exerceu a função de Coordenador-Geral de Educação em Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, trabalhando na gestão do ministro Paulo Vannuchi.
Foi um período particularmente significativo para a institucionalização e o fortalecimento das políticas públicas de Direitos Humanos no Brasil, marcado por avanços em diferentes áreas de promoção, proteção e afirmação da dignidade humana.
Sua atuação alcançava diferentes eixos da política nacional de Educação em Direitos Humanos: educação básica e ensino formal; educação superior; educação não formal; segurança pública; e comunicação e Direitos Humanos.
Na educação básica, trabalhou pela inserção transversal dos Direitos Humanos no processo educativo. Na educação superior, atuou na articulação da Educação em Direitos Humanos no ambiente universitário, incluindo formação, pesquisa, especializações, mestrados e doutorados.
Na educação não formal, trabalhou junto às organizações da sociedade civil e entidades de Direitos Humanos de diferentes regiões do país, valorizando a educação popular em Direitos Humanos.
Na segurança pública, defendia a compreensão do profissional de segurança como sujeito de direitos e, simultaneamente, agente público responsável pela promoção e garantia dos Direitos Humanos.
No campo da comunicação, sua atuação incluía o enfrentamento do racismo, da intolerância religiosa, da homofobia e de outras formas de discriminação e violência contra a dignidade humana.
Essa experiência consolidou sua compreensão de que não basta ensinar direitos: é necessário formar uma verdadeira cultura de Direitos Humanos.
PRÊMIO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA — 2010
Na condição de Coordenador-Geral de Educação em Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Padre Fabio Potiguar coordenou, em 2010, a 16ª edição do Prêmio Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, uma das mais importantes iniciativas institucionais de reconhecimento público de pessoas, organizações e experiências dedicadas à promoção e à defesa dos Direitos Humanos no Brasil.
Tratava-se de uma ação realizada no âmbito da própria Presidência da República, inserida na política nacional de Direitos Humanos e conduzida durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na gestão do ministro Paulo Vannuchi.
O Prêmio contemplou 18 categorias, abrangendo defensores de Direitos Humanos, educação, mídia, enfrentamento à pobreza e à violência, segurança pública, combate à tortura, memória e verdade, igualdade racial e de gênero, direitos da população LGBT, erradicação do sub-registro civil, trabalho escravo, direitos de crianças e adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência e povos indígenas, entre outras áreas.
A coordenação dessa edição colocou Padre Fabio diretamente no centro de uma das grandes ações nacionais de reconhecimento da agenda de Direitos Humanos naquele período, articulando diferentes áreas do Governo Federal, instituições, movimentos sociais e organizações da sociedade civil.
A cerimônia de entrega foi realizada em 13 de dezembro de 2010, no Palácio do Planalto, em Brasília, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.